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Resenha: Coisa Mais Linda (Netflix, 2019)

Coisas que eu pensei assistindo à nova série brasileira na Netflix

Coisa Mais Linda nos apresenta Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, com seu samba e sua bossa nova no ano de 1959. Seu arco narrativo acompanha 4 mulheres, com seus anseios, e desafios que precisam enfrentar para obter espaço, reconhecimento, voz e visibilidade em uma sociedade de homens. Nisso tudo, a força de cada uma, e a amizade das quatro unidas, nos apresentam uma série que te abraça e te faz pensar.

Vemos uma negra que é invisível, e várias são as cenas que mostram que no Brasil da década de 50, o negro não tinha vez. Sua vida no morro, sua jornada intensa de trabalho, o racismo para qual precisava se calar diariamente foram passados na trama de modo a nos enervar, porém não impressionaram. 60 anos depois, a realidade de grande parte da população negra brasileira não é diferente. Adélia (Pathy Dejesus) então sofria duas vezes, além da cor da sua pele, o fato de ser mulher a categorizava ainda mais abaixo na escala social. Talvez a sutiliza da cena em que ela precisava que seu namorado Capitão (Ícaro Silva), lesse para ela, servisse para nos mostrar que ser negro no Brasil é difícil, mas ser mulher e negra, é ainda pior.

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Adélia, Malu, Theresa e Ligia
        No enredo também vemos uma mulher à frente de seu tempo: uma jornalista aventureira, que garimpa por seu espaço num campo de majoritariamente masculino. Ela trabalha para uma revista feminina em que, ironicamente, era a única mulher. Para seu superior, Theresa (Mel Lisboa) é um adereço e um par de pernas para alegrar o ambiente, já que, em sua perspectiva, apenas homens são suficientemente centrados e competentes. A razão do chefe da redação contratar uma nova jornalista é determinada pelo fato do salário de uma mulher ser muito mais baixo que de um homem. Interessante observar como as narrativas atuam de forma a manter hegemonias: homens produziam conteúdos de informação e entretenimento para mulheres a partir da visão que eles possuíam sobre o que poderia, e principalmente, deveria ser de interesse de uma mulher. Lugar de fala? Representatividade? Nem pensar!

Outra protagonista segue a história da típica mulher tradicional brasileira - silenciada pelo patriarcado. O sonho de Ligia (Fernanda Vasconcellos) era ser cantora, mas para respeitar seu marido, ela só se permite cantar no chuveiro. Seus deslizes lhe rendiam surras seguidas de “eu te amo”. O marido, envolvido na política e na preservação do nome e da moral da família, foi responsável pelas cenas mais repugnantes de toda a série, mas que retratam sérios problemas do nosso país: a violência contra a mulher, a culpabilização da vítima, a vulgarização da mulher quando decide ser livre, o estupro e o feminicídio.

Por fim, temos Maria Luíza, ou Malu (Maria Casadavell), a responsável por unir essas três diferentes histórias à sua própria. Torna-se emblemática sua luta por independência, e por mostrar que é tão capaz quanto qualquer homem. Ela passa a ouvir sua voz e não se calar diante os tradicionalismos e conformismos a que se via submetida. Sua ousadia não foi apenas construir, com a ajuda de Adélia, o clube noturno de música ao vivo que dá nome à série. Seu grande ato foi arrebentar amarras que a prendiam como a filha perfeita, a esposa perfeita, a mãe perfeita e mostrar que ela é perfeitamente capaz de cuidar da própria vida e dinheiro, sem precisar de um homem pra isso. Afinal, ela podia muito bem ser livre, trabalhar e ser mãe – ainda que não pudesse realizar empréstimo ou abrir negócio sem a assinatura de um homem. As frases feministas foram ditas por ela diretamente para seu público, não apenas o de seu clube, mas para tantas mulheres que assistiram os 7 episódios dessa primeira temporada que já tinha o feminismo em seu projeto de marketing.

Um brinde às mulheres que lutam!

Mulheres que trabalham, festejam, bebem, transam, quebram padrões e enfrentam tabus. “Se os homens podem escrever como se fossem mulheres, nós podemos beber, como se fossemos homens”, diz Theresa, expressando muito da essência do que as quatro protagonistas queriam: ter os mesmos direitos que os homens.

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