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Os "Novos" Movimentos Sociais

Os novos movimentos sociais são assim denominados porque apresentam algumas diferenças fundamentais em relação aos movimentos tradicionais ou clássicos e, em especial em relação ao movimento operário.
 Como vimos anteriormente, o Estado de Bem-Estar Social proporcionou o reequilíbrio do sistema produtivo nos moldes capitalistas, garantindo, entre a década de 1940 e a de 1960, que a acumulação se desenvolvesse sem a ameaça real da ideologia socialista.
Para garantir esse processo, o Estado se agigantou, criou uma máquina tecno burocrática imensa para cuidar do planejamento econômico e social, centralizando no executivo a produção e execução de suas políticas. Apoiado na técnica, como um conhecimento supostamente neutro, o Estado entrou em quase todos os setores da vida social.
Com a progressiva utilização de novas tecnologias, os níveis de produtividade se multiplicaram em todos os setores das atividades produtivas, ao mesmo tempo em que se aprofundou a divisão técnica e social do trabalho: novos produtos, novas máquinas, novas fábricas, novos postos de trabalho e novas profissões surgiram, alterando profundamente a estrutura social.
A classe média sofre uma reformulação, não se compõe mais apenas de pequenos industriais, pequenos comerciantes, mas também de gerentes de marketing, gerentes de produção, técnicos de informática, outros executivos, profissionais liberais, etc. Da mesma forma, a classe operária teve seu perfil alterado, com o aparecimento de categorias especializadas em diversos setores.
No mundo desenvolvido e em países em adiantada fase de industrialização, a população é predominantemente urbana e se assume ocupações na indústria e nos serviços. Cabe ressaltar também que a mecanização do campo intensificou o processo de urbanização.
Os meios de comunicação e os transportes desenvolveram-se (o mundo ficou menor). Viveu-se entre os anos 40 e 60 o sonho da modernidade, com os Estados Unidos simbolizando, com o American wayoflife, a própria modernidade.
Mas, já nos anos 60, esse modelo de sociedade começou a entrar em crise. O Estado rapidamente perdeu sua capacidade de financiar o pleno emprego, e os desequilíbrios entre os setores produtivos voltaram a ameaçar o sistema capitalista. O desemprego em massa, motivado por questões de ordem estrutural e pelas políticas recessivas, pôs em questão não só a própria viabilidade do modelo de desenvolvimento industrial capitalista (modelo que, também, foi seguido nos países de socialismo real), desnudando seu caráter concentrador de renda, mas também a gestão autoritária do Estado, a partir de uma tecnocracia que se julgava onisciente por ser detentora do conhecimento técnico, mas que foi incapaz de evitar a contaminação dos rios, do ar, do solo, a possibilidade real do esgotamento dos recursos naturais, a corrida armamentista e o perigo constante da utilização da energia nuclear nos artefatos de guerra, como uma ameaça a toda humanidade, antes mesmo que a esmagadora maioria dos países pudesse viver o “sonho americano”

O SURGIMENTO DOS NOVOS MOVIMENTOS SOCIAIS


Surgiram, então, os movimentos ecológicos, com suas correntes:

· Ambientalistas: volta-se para o desenvolvimento controlado e equilibrado quanto à utilização dos recursos naturais.
·  Conservacionistas: nega a utilização de tecnologias que põem em perigo o meio ambiente, optando por soluções alternativas.

Por outro lado, a cultura, no que diz respeito aos valores tradicionais, como a família e seus princípios hierárquicos, a fé religiosa e seus dogmas, foi revolucionada por valores da modernidade trazidos pela impessoalidade e intensidade da vida na metrópole, desestabilizando as relações humanas.
Com efeito, surgem novos comportamentos; a presença feminina na vida social, econômica, política e cultural torna-se mais visível e participante. O casamento deixa de ser um fim em si mesmo. As mulheres, especialmente de classe média, vão para as universidades, qualificam-se nas mais diversas profissões e passam a competir no mercado de trabalho. Os tabus vão sendo pouco a pouco derrubados, a pílula anticoncepcional proporciona à mulher a liberdade de dispor do próprio corpo. Surgem movimentos feministas, uma campanha de defesa dos direitos das mulheres, incluindo a igualdade social, política e econômica relativamente aos homens.
  

Luta feminina

As primeiras contestadoras europeias dos séculos XVII a XIX lutavam pelos direitos das mulheres à posse da propriedade, ao acesso à instrução de nível superior e ao voto. Depois de as mulheres terem alcançado o direito ao voto no século XX, as preocupações do movimento feminista viraram-se para a defesa de oportunidades sociais e econômicas iguais para as mulheres, incluindo igualdade no emprego.

A juventude, de um modo geral, se rebela contra os padrões tradicionais de uma moral burguesa envelhecida, manifestando-se através da música (Elvis, The Beatles...). O movimento hippie surge como a própria negação da sociedade de consumo e da educação tradicional. Os movimentos estudantis eclodem por toda parte, simbolizados pelo movimento de maio de 1968 na França, questionando os currículos escolares. A autoridade e a ideologia nacionalista são criticadas, mediante as marchas pacifistas, nos Estados Unidos e em países da Europa, contra a Guerra do Vietnã.
Os problemas urbanos se avolumam também nos diversos países do mundo desenvolvido, revelando um decréscimo gradativo da qualidade de vida. Surgem os movimentos sociais urbanos, reivindicando melhorias nos setores de transporte, de saúde, de habitação, de segurança, etc., que demandam não apenas a manutenção e a ampliação dos serviços sociais, mas a própria mudança da gestão pública.
A crise do modelo de desenvolvimento se explicita na própria crise do Estado, que não consegue mais se justificar perante a sociedade com a linguagem tecnocrata. Verifica-se, desse modo, a perda progressiva da legitimidade do Estado, que também é estendida às demais instituições políticas, como os partidos e os sindicatos.

Os novos movimentos sociais têm em comum o fato de denunciarem as contradições da sociedade capitalista em seus diversos níveis de relações, ao mesmo tempo em que apontam para a incompatibilidade das formas de organização do poder político (autoritário e tecnocrata), em uma sociedade mais complexa e em intenso processo de transformações sociais.

Podemos afirmar que os novos movimentos sociais se diferenciam dos tradicionais porque apresentam projetos voltados para a organização autônoma dos diversos segmentos sociais, o que evidencia uma visão de mundo que respeita a diversidade entre os grupos e as classes, mas sem negar o direito a todos de conviver em um mesmo espaço social, econômico e político, em igualdade de condições e com justiça social.


Considerando cada um dos novos movimentos sociais em particular, poderemos verificar que suas práticas não estão voltadas prioritariamente para a tomada do poder do Estado, com a finalidade de construir uma sociedade nova. Primam, antes, por uma organização mais horizontalizada, não hierárquica e igualitária. E, com efeito, suas práticas não significam apenas a negação de valores tradicionais, mas a própria afirmação de novas formas de vida, de uma nova cultura, como parte fundamental de uma nova sociedade.
Reprodução para fins didáticos.

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