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blog de ciências humanas

Os Movimentos Sociais

A sociologia nos oferece um conjunto de abordagens, com base em orientações teóricas diversas, que nos permitem chegar a uma conceituação coerente sobre o que seja movimento social.

Conflito e Ação Coletiva


TUMULTO

Eu sempre penso duas vezes antes de entrar
mas tem certos momentos
que atingem o inconsciente popular

tumulto, corra que o tumulto está formado
vem cá, vem vê, vem cá vem vê
que dentro do tumulto pode estar você

panela batendo, toca fogo no pneu,
põe barricada
velhos, senhoras e crianças
a molecada pula debocha e dá risada
parece brincadeira mas não é a comunidade não aguenta mais
tanto tempo sem água




tudo bem ele era o bicho
mais saiu daqui inteiro
e até chegar no hospital
ganhou três tiros no peito
e a galera daqui fez igual fizeram
em Vigário Geral
todo mundo pra rua aumentar o som
pra causar algum tipo de repercussão
quando o monstro vem chegando,
chegando, chegando
e ameaçando invadir o seu lar

(O Rappa)




As imagens desse movimento social podem ser identificadas com muitas das nossas experiências cotidianas. Quem de nós já não vivenciou, como participante ativo ou como simples espectador de TV, cenas de manifestações de grupos, ou mesmo de multidões, em defesa, por exemplo, do ensino público e gratuito ou contra a poluição do meio ambiente? Com certeza todos já viram, porque são incontáveis os casos de manifestações e movimentos sociais, ocorridos na nossa sociedade.
No exemplo dado na música do Rappa - “Tumulto”, o que primeiro nos chama a atenção é o iminente confronto, “...panela batendo, toca fogo no pneu põe barricada...” ou “... até chegar no hospital ganhou três tiros no peito...”. Mas devemos observar que nem todo movimento social tem como um dos seus desdobramentos o enfrentamento com a polícia como sugere a música. Como também não é verdade que todo enfrentamento com a polícia significa um movimento social. Entretanto, a situação descrita evidencia um conflito. E o conflito é um elemento constitutivo de todo movimento social.
A ideia de conflito é própria do paradigma de análise histórico-estrutural, que se baseia, fundamentalmente, na teoria marxista. Nessa abordagem, embora, os autores tenham pontos de vista diferentes, consideram no conflito a explicitação das contradições sociais. No exemplo da música, podemos dizer que se trata da incapacidade do Estado de atender às suas reivindicações, o que os leva a uma situação de carência, de necessidades não satisfeitas, que, por sua vez, gera conflitos. Como exemplos de autores dessa corrente de pensamento podemos citar: Manuel Castells, Jean Lojkine, Eric Hobsbawm e Edward Thompson.
Ocorre que a mesma situação pode ganhar uma conotação diferente se utilizarmos a abordagem de autores como H. Blumer e N.J. Smelser, da Escola Americana de Sociologia. Para eles, as imagens relatadas na música mostram um desequilíbrio social, e não um conflito. Isso porque, segundo essa concepção, não há interesses que se antagonizam no interior da sociedade, dado que esta sociedade é vista como decorrente de um processo natural e, assim, esse tipo de decorrência é visto como parte de um processo natural de mudanças que independem das ações dos indivíduos. A sociedade prevalece sobre eles, desperta novos comportamentos, que por sua vez são expressos nos movimentos sociais.
Porém o conflito por si só, não é condição suficiente para a emergência de movimentos sociais. É necessário que o mesmo se desdobre em ações coletivas e que visem a alteração (ou manutenção) da vida social das pessoas. Norteando a concepção histórico-estrutural sobre os movimentos sociais temos então, a noção de ação coletiva e de conflito.

Existe também a abordagem que considera a ação coletiva pelo viés dos indivíduos (ação coletiva de indivíduos). É o paradigma culturalista, que amparado na teoria weberiana considera importante os aspectos subjetivos dos fatos, em outras palavras, atem-se à compreensão dos discursos e das representações que os próprios indivíduos fazem de suas ações. Podemos citar como representantes da abordagem culturalista: Alain Touraine e Claus Offe.

Este texto não é meu. Reprodução para fins didáticos.

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