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O Movimento Operário

“É fácil compreender, mesmo que eu não o tivesse dito explicitamente, que os operários ingleses não podem sentir-se felizes numa tal situação; que a sua situação não é a mais adequada para que um homem, ou uma classe inteira, tenha possibilidades de pensar, sentir e viver humanamente. Os operários devem, portanto, tentar se libertar desta situação que os coloca ao nível dos animais, para criarem para si próprios uma existência melhor, mais humana, e só podem fazer entrando em luta contra os interesses da burguesia enquanto tal, interesses que residem precisamente na exploração dos operários. Mas a burguesia defende os seus interesses com todas as forças de que pode dispor, graças à propriedade e ao poder do Estado.
Desde o momento em que o operário quer escapar ao atual estado de coisas, o burguês torna-se seu inimigo declarado.
Mas, além disso, o operário pode constatar em qualquer momento que o burguês o trata como coisa, como sua propriedade, e esta razão basta para que ele se manifeste como inimigo da burguesia. Já demonstrei anteriormente com a ajuda de uma centena de exemplos – e teria podido citar centenas de outros – que, nas circunstancias atuais o operário não pode preservar sua condição de homem senão pelo ódio e pela revolta contra a burguesia. (...) “
(ENGELS, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. São Paulo, Global, 1986, pp. 241)

O SURGIMENTO DO MOVIMENTO OPERÁRIO


O movimento operário assumiu um caráter internacional somente na segunda metade do século XIX. E esse fato se deveu à avançada industrialização capitalista na maioria dos países europeus, bem como nos Estados Unidos e no Japão. A situação de brutal exploração a que foram submetidos os trabalhadores industriais dos diversos países tornou possível o estabelecimento de identidade entre os operários e a unificação de suas lutas. Ademais, pela primeira vez, o movimento operário apresentava-se apoiado numa teoria revolucionária que apontava para a superação da opressão de classe e para a construção de uma sociedade de homens livres e iguais – sem explorados e sem exploradores.
O movimento operário nasceu e se desenvolveu com o capitalismo industrial e sob as condições mais degradantes que se possa imaginar: jornadas de trabalho excessivas, em locais úmidos, mal iluminados e sem ventilação, exploração do trabalho de mulheres e crianças em funções, muitas vezes, idênticas àquelas exercidas pelos homens, mas com salários ainda menores. Enfim, condições aviltantes à dignidade humana, no que se referia à habitação, saúde e alimentação, sem falar na educação que praticamente inexista. As péssimas condições de trabalho penalizavam principalmente as mulheres e crianças, segue abaixo um depoimento sobre a vida de uma operária na Inglaterra:

TEXTO COMPLEMENTAR

Depoimento de Betty Harris, 37 anos:

 Casei-me aos 23 anos, e foi somente depois de casada que eu desci à mina; não sei ler nem escrever. Trabalho para Andrew Knowles, da Little Boiton (Lancashire). Puxo pequenos vagões de carvão, trabalho das 6 da manhã ás 6 da tarde. Há uma pausa de cerca de uma hora, ao meio dia, para o almoço; dão-me pão e manteiga, mas nada para beber. Tenho dois filhos, porém eles são jovens demais para trabalhar. Eu puxava esses vagões quando estava grávida. Conheci uma mulher que voltou para casa, se lavou, se deitou, deu à luz e retomou o trabalho menos de uma semana depois.
Tenho uma correia em volta da cintura, uma corrente que passa por entre minhas pernas e ando sobre as mãos e os pés. O caminho é muito íngreme, e somos obrigados a segurar uma corda – e quando não há corda, nós nos agarramos a tudo o que podemos. Nos poços onde trabalho, há seis mulheres e meia dúzia de rapazes e garotas; é um trabalho muito duro para uma mulher. No local onde trabalho, a cova é muito úmida e a água sempre cobre os nossos sapatos. Um dia, a água chegou até minhas coxas. E o que cai do teto é horrível! Minhas roupas ficam molhadas durante quase o dia todo. Nunca fiquei doente em minha vida, a não ser na época dos partos.
 Estou muito cansada quando volto à noite para casa, às vezes adormeço antes de me lavar. Não sou mais tão forte como antes, não tenho mais a mesma resistência no trabalho. Puxei esses vagões até arrancar a pele; a correia e a corrente são ainda piores quando se espera uma criança.(Extraído de um relatório parlamentar inglês, 1842. Em: ValéryZanghellini. Direção, Connaissancedu Monde Contemporain, p. 110)


As lutas inicialmente isoladas, por melhores salários ou pela redução da jornada de trabalho (na época a jornada de trabalho não era inferior a 14 horas por dia) foram, pouco a pouco, tornando-se mais frequentes e organizadas.
As greves e as ações de quebra-quebra de máquinas e fábricas se constituíram, inicialmente, nos únicos instrumentos de luta dos trabalhadores, num momento em que não tinham nenhum meio de representação para defender seus interesses em face do capital e do Estado.

Como todo movimento social pressupõe relações de opressão, e assim, contra a onda de quebra-quebra que assolou a Inglaterra na segunda metade do século XVIII e início do século XIX (movimento ludista), o parlamento inglês instituiu, em 1769, a pena de morte para os destruidores de máquinas. Em 1799, o mesmo parlamento, proibiu toda e qualquer manifestação operária, como greves e associações.


Este texto não é meu. Reprodução para fins didáticos.

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